sábado, 22 de agosto de 2015

Usando o sistema ‘Cloake board’ para criar rainhas



O método Cloake board de criação de rainhas é popular entre os apicultores com poucas colónias porque permite criar rainhas com pouco equipamento e perturbando a colmeia o mínimo possível. 

O sistema Cloake board está disponível em vários formatos, mas basicamente consiste em usar um estrado sem fundo onde se ira prover uma entrada adicional à colmeia. Este estrado tem a opção de ser colocado um fundo fechado (preferencialmente com um fundo de metal) ou deixar aberto. Também é necessário uma grelha excluidora de rainhas integrada nesse “estrado” adaptado, ou em separado. 
Sistema Cloake board

O método Cloake board não dispensa o uso do piking. 

Para usar este método, proceda da seguinte forma:

1. Quando estiver preparado para criar rainhas, selecione uma colmeia vigorosa com duplo ninho:

1.1.    Separe as duas caixas

1.2.    Rode a caixa de baixo 180 degraus de modo a que a entrada fique virada para trás

1.3.    Feche a entrada.

1.4.    Tenha a certeza que a rainha se encontra na caixa de baixo

1.5.    Deixe alguns quadros de criação aberta na caixa de cima 

1.6.    Instale a grelha excluidora e o sistema Cloak board sem no entanto colocar o fundo deste, com a entrada virada para a frente

1.7 Ponha a caixa superior acima do sistema Cloake board

1.8.    Feche a colmeia e espere 12 horas

O que acontece e porquê: Agora você tem a rainha confinada à caixa em baixo. As abelhas em pouco tempo reorientam-se para a nova entrada, que fica acima do sítio onde a antiga entrada costumava ficar. As abelhas jovens irão subir através da grelha excluidora para atendender à criação desoperculada deixada na caixa superior.

2. Depois de 12 horas, você deverá separar a colónia em duas partes – a parte de cima que ficará órfã e a parte de baixo com a rainha:

2.1.    Comece por fechar o estrado superior com o fundo de metal.

2.2.    Abra a entrada de baixo (que esta virada para trás)

2.3.    Dê às abelhas um dia para se acostumarem com a nova configuração da colmeia. 

O que acontece e porquê: Agora as campeiras da caixa inferior irão deixar a caixa pela entrada na parte de trás, mas quando regressarem à colmeia, elas usarão a entrada superior que fica na frente. Mas a presença do fundo de metal irá impedir que estas voltem à caixa inferior. Assim, elas ficam na caixa superior que em pouco tempo fica carregada de abelhas. Uma muito populosa colmeia – mas órfã –  é exatamente o que nós queremos para criar rainhas. Quanto mais abelhas melhor. 

3. Depois de um tempo, as abelhas da caixa superior irão reconhecer que estão órfãs e começarão a fazer alvéolos reais:

3.1.    No dia seguinte abra a caixa superior e remova os alvéolos reais que eventualmente as abelhas tenham começado a construir. 

3.2.   Retire um dos quadros com criação desoperculada e coloque-o numa outra colmeia qualquer.

3.3.    Coloque o quadro com as larvas jovens após o piking. 

3.4.    Se não houver fluxo de néctar, alimente a colónia com xarope de açúcar e se necessário com pólen ou um substituto de pólen.

3.5.    Feche a colmeia por 24 horas

O que acontece e porquê: Durante este período, as abelhas aceitarão as larvas e iniciarão a construção de alvéolos reais. A colonia estará em modo de iniciadora. Se houver ainda muita criação desoperculada talvez seja melhor remover esses quadros e colocar quadros com cera puxada, assim, as abelhas jovens concentrar-se-ão nas células reais.

4. Depois de 24 horas, as células reais estarão em desenvolvimento. Neste ponto podemos reunir as duas colónias. A colónia estará neta fase como finalizadora. 

4.1.    Remova o fundo de metal do sistema Cloake board

4.2.    Jamais remova a grelha excluidora.

O que acontece e porquê: A população combinada das duas caixas irão agora trabalhar juntas para finalizar os alvéolos reais. 

5. O quadro com os alvéolos reais é retirado da colmeia.
 
5.1.    Remova as células reais da colónia assim que estiverem operculadas e coloque-as nos mini núcleos ou desdobramentos orfãos. 

5.2.    Retire o sistema Cloake board e a grelha excluidora para assim reunir completamente a colmeia original. 

O que acontece e porquê: Uma vez que as células estão operculadas, deixam de precisar da atenção das abelhas nutrizes. Os alvéolos reais precisam ser colocados em colónias separadas antes das rainhas nascerem para que a primeira a nascer não mate as outras. As rainhas deverão nascer 11 dias depois do piking.



Artigo adaptado de
Honey Bee Suite

terça-feira, 21 de julho de 2015

Só 20kg por colmeia?

O verão já vai a mais de meio e o Trevo Branco continua a proporcionar este ano em S. Miguel um espetáculo que só os apicultores (e os agricultores mais esclarecidos) conseguem vislumbrar. São milhões de cabeças brancas nas pastagens, à beira de estradas, jardins, rotundas, baldios etc.


Tem sido um verão chuvoso, o que é bom para a continua produção de néctar de Trevo. Embora a chuva excessiva para a  época,  as abelhas não tem deixado de cumprir os seus deveres. A floração do Metrosidero foi bem melhor este ano que no ano passado e agora já começam a despontar aqui e ali a floração da Conteira, o que poderá tornar este ano apicula como um dos melhores na ultima década.

Outras florações com menos relevância mas com bom potencial, também têm mostrado o seu vigor, como é o caso da Silva, do Dente-de leão entre muitas outras o que me faz pensar que só no verão, uma colmeia boa e bem preparada, poderá tirar bem mais de 30 kg de mel, isso sem contar com o já extraído mel da primavera (incenso) onde as melhores, e mais bem situadas colmeias, puderam produzir cerca de 20 kg.

Uma boa Api.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Produção exponencial de mel – Lei de Farrar



Ainda hoje em dia há quem defenda que se deve utilizar grade excluidora na produção de mel. No entanto, a não ser em casos muito específicos, o uso da grelha é totalmente dispensável e desejável. Estarmos a restringir a área de postura da rainha é estarmos a desperdiçar um maior potencial de colheita de mel ou até de outros produtos da colmeia como o pólen ou própolis.

Para quem não está familiarizado com a forma como uma colónia de abelhas trabalha proponho que dê uma vista de olhos numa lei matemática descoberta na primeira metade do século passado – a lei de Ferrar

O que é a lei de Farrar


Farrar é o sobrenome do entomologista e apicultor Clarence Farrar que estudou o comportamento das abelhas no intuito de tentar perceber de que forma o número total de abelhas influenciava a produção de mel entre outras coisas. As suas descobertas são hoje um conhecimento básico de muitos apicultores. Costuma-se dizer que uma colmeia forte produz mais do que 3 ou 4 colmeias fracas. Quando dizemos isso, estamos fazendo alusão a lei de Farrar pois foi ele nas suas conclusões que demonstrou que uma colmeia de 60 mil abelhas produz  1,54 vezes mais do que quatro de 15 mil abelhas.
 Farrar também verificou que uma colmeia com uma população de 2000 abelhas, 20% delas são campeiras. Quando a população é de 5000 abelhas a percentagem de campeiras já é 25%. Se o número total de abelhas for 60.000 a percentagem de campeiras já será de 65% o que se traduzirá num maior rácio de produção de mel por abelha.
Número total de abelhas versus número de campeiras.

Assim, o aumento de abelhas na colónia aumenta a produção de forma exponencional e não linear como se poderia pensar.
Mais do isso a descoberta de Farrar também encontrou um paralelo entre o peso total de abelhas e o rendimento destas em mel, ou seja, Farrar descobriu que 1 kg de abelhas (cerca de 10000 abelhas) tem capacidade de produzir 1 kg de mel num ano. Mas se forem 2 kg de abelhas essa produção já será de 4 kg de mel/ano. A formula é simples, basta usar sempre o peso das abelhas ao quadrado (elevado a 2). Portanto, 6 kg de abelhas (aproximadamente 60 mil abelhas) a capacidade de produção de mel será de 36 kg (62 ou 6x6= 36)

Tabela representativa da lei de Farrar


 

Que ilações podemos tirar 

 

Conhecer esta regra deve fazer o apicultor reconhecer que quanto mais prolifera for uma rainha, mais capacidade terá essa colónia de produzir mel. Dai que restringir a postura de uma rainha com uma grelha excluidora é não utilizar todo o potencial de uma colónia. Este método arcaico não se justifica. Em minha opinião somente em casos muito específicos como criação de rainhas entre outras coisas é que o uso de tela é justificável. Sempre que uma rainha suba às alças para fazer postura, nada melhor que acrescentar mais alças ou simplesmente reverter a alça com o ninho no caso deste ter espaço para postura (não esteja bloqueado ou cheio de criação)

 Boa api


domingo, 8 de fevereiro de 2015

Aquecimento e ventilação das colmeias.



Um artigo num blog em inglês chamou-me a atenção por ser um assunto que sempre me intrigou - devem as colmeias ser ventiladas ou não? E se sim, em que medida? Não sendo eu um expert em inglês, fiz uma tradução do artigo podendo este conter alguns erros que peço desde já desculpa. Nas referencias às colmeias obviamente foram utilizadas colmeias com modelos locais (do Reino Unido).


O Artigo original em inglês encontra-se em /https://oxnatbees.wordpress.com/2015/01/25/warm-hives/

"Recentemente fui a uma palestra brilhante organizado pela OBKA dada por Derek & Elaine Mitchell, que têm feito alguma pesquisa rigorosa sobre o isolamento das colmeias e os seus efeitos. Eles apresentaram os seus resultados para uma publicação no Journal of Apicural Research. Aqui estão alguns pontos-chave que marquei:


P: Porque é que muitas fontes dizem que colmeias precisam de muita ventilação ao passo que outras referem que o calor necessário à sobrevivência duma colonia depende de ventilação mínima?


R: Grande parte das pesquisas foram feitas por altura da 2 ª Guerra Mundial, por exemplo, houve um livro-chave publicado em 1947, e naqueles dias a madeira era escassa e eles não tinham acesso a isoladores modernos como poliestireno. As colmeias eram de paredes finas e frias. Nessas condições, para evitar mofo húmido seria necessária muita ventilação! Mas nos dias de hoje, podemos fazer colmeias muito mais quentes, que imitam as árvores ocas onde as abelhas evoluíram, e, neste caso, alta umidade é melhor (alta umidade ajuda as larvas e ovos a sobreviver e dificulta o desenvolvimento da varroa) e não há paredes frias onde a humidade possa condensar e promover o crescimento de fungos. Para uma colmeia bem isolada, a ventilação é indesejável. Para além da existência de alta humidade decorrente de colmeias bem fechados, as altas temperaturas impedem reprodução da varroa, ajudam a suprimir a nosemose e cria de giz (ascosfariose), promove o comportamento higiénico (que também pode ajudar no controlo da varroa). No compito geral, melhor isolamento térmico reduz a mortalidade precoce – criação resfriada pode não viver por muito tempo, mesmo que eclodam posteriormente as abelhas adultas.

Curiosamente, embora não se descrevendo como um apicultor naturalista, Elaine Mitchell parou os tratamentos à varroa. Suas super-isoladas colmeias Nacionais, que usam arames e fundação, continuam a ter alguma varroa, mas nunca em número alto o suficiente para prejudicar as colônias.


P. As abelhas não usam mais energia quando estão ativas? Colônias que são muito bem isolados não parecem se agrupar no inverno – não irão elas usar as suas reservas muito rapidamente?

R. Não, elas não usam mais energia. Este é um equívoco baseado em experimentos sobre a taxa metabólica, onde foram realizadas em abelhas no ar a temperaturas controladas. Se elas podem aquecer a colmeia para um ponto confortável, elas não precisam de muita energia para se manterem vivas - a chave é fornecer um ambiente que pode aquecer a um custo mínimo. Uma cavidade bem isolada, em outras palavras.



P. Que tipo de colmeia tem o melhor isolamento?


R. Os palestrantes fizeram alguns testes intensivos (2,3 milhões de medições!) Em 8 tipos de colmeia (12 colmeias no total). Para uma entrada de 20 watts - o que equivale a queima de 20 colheres de chá de mel por dia - eles viram os seguintes aumentos de temperatura (houve uma disseminação de resultados, esta é a minha estimativa do eixo dos gráficos por eles exibidos) -
(Paredes espessas 6 polegadas) Cavidade natural em árvore  - 60 graus C
Colmeia Skep , selada com esterco de vaca - 22 C
Colmeia em Poliestireno (vários tipos) - 22 C
Colmeia Warre, paredes pouco mais de 1 polegada de espessura, 4 polegadas de serragem grossa no topo - 16 C
Colmeia Top Bar queniana com barras de espessura superior, diretamente sob um telhado plano - 14 C
Madeira Nacional - 7 C a 10 C

Eles não têm acesso a colmeias WBC (a dupla parede na colmeia Nacional) ou à Langstroth de madeira (a equivalente americana da colmeia Nacional). As colmeias de poliestireno foram: 4 Nacionais, 1 Langstroth, 1 Núcleo, e um poli 14 × 12.



Outros pontos-chave

Colônias usam muito mais energia para reunir e evaporar néctar, na Primavera e no Verão, do que para sobreviver durante o inverno. A evaporação funciona muito melhor em altas temperaturas. Então pode-se concluir que o isolamento é mais importante num clima quente do que frio! È a fazer mel que elas usam energia intensiva, não para sobreviver ao inverno. Um agricultor do Reino Unido tem 1.000 colmeias em madeira e 1.000 colmeias de poliestireno. Ele faz mais mel de suas colmeias poli e está mudando as outras o mais rápido possível.
Uma razão das colmeias skeps serem tão eficiente é que elas se ajustam à forma do aglomerado bem - não há nenhum volume morto ao calor, e têm uma boa relação de área de superfície para volume.


Derek & Elaine vão apresentar esta palestra novamente na Convenção da Primavera BBKA."




sábado, 31 de janeiro de 2015

O Arranque 2015

Desde meados de janeiro - um pouco mais cedo ou tarde consoante a localização - que se nota um arranque nas colmeias. Muito pólen amarelo a entrar nas colmeias provinda das Camélias, Margaridas, Erva-azeda e da "interminável" Bânccia. Em algumas zonas muita entrada de pólen branquinho dos Eucaliptos. Todas as colmeias sempre que tem oportunidade trabalham com grande afinco. Ao inspecionarmos o interior, nota-se boa postura das rainhas.
Margaridas

A Erva-abelha, alguns citrinos e sobretudo o Incenso já mostram os rebentos de folhas novas indicando o inicio da floração para breve. Quem ainda não iniciou a estimulação das colmeias para esta floração arrisca-se a atrasar-se pois o mau tempo nem sempre permite uma recolha continua do pólen e néctar da natureza. É tempo de estimular, é tempo de preparar ceras, caixas, é tempo de preparar a exploração para a época produtiva que se avizinha.

Uma boa api

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Final de ano - ponto de situação



Dezembro de 2014, contrariamente ao ano passado, o tempo é de alguma escassez na floração aqui em S. Miguel. A erva azeda (trevo amarelo) teima em não florir embora já haja pontualmente aqui e ali algumas flores. As nespereiras já praticamente não possuem flores. A erva-abelha está em quase todas as zonas despida de vigor. O Eucalipto está em flor mas não abrange todas as zonas da ilha. Resta a Bânccia que tem tido uma floração bastante perlongada no tempo e que tem feito as abelhas trabalharem com algum afinco. 
Flor de Eucalipto

Pontualmente também tem aparecido precocemente algumas florações de início de ano mas ainda nada de relevante. As abelhas hibridas de predominância amarela tem trabalhado bem enquanto que as escuras parecem adormecidas. Hoje, curioso com a inercia de uma das minhas colonias de abelha escura (predominantemente iberiensis) abri a colmeia, só para ver que no interior havia muitas abelhas a cobrir os 10Q de ninho e boas reservas de mel. Trabalhar é que “tá quieto” nem se dão ao trabalho de puxar ceras embora muitas vezes a temperatura esteja à volta dos 15c. Ao lado, outra colmeia de abelhas escuras, a que costumava ser mais forte nos últimos tempos deste meu apiário, embora se note abelhas à entrada, trabalhar também é muito pouco. Já todas as colmeias de predominância amarelas (lingústica) têm-me agradado pelo trabalho no exterior e desenvolvimento no interior dos ninhos. É de lamentar que não tenha havido um trabalho de apuramento das raças existentes na ilha, sem dúvida que hoje um apicultor teria o seu trabalho muito mais recompensado a nível de produtividades. Hoje, fazer seleção de rainhas com “raças” hibridas é quase como dar tiros no escuro, nunca se sabe bem como serão as filhas, se serão mansas ou agressivas, se serão produtivas ou higiénicas, enfim, quase um verdadeiro totoloto.

Em janeiro, começarei a fortalecer com xarope as colónias produtivas mais debilitadas a ver se este será um bom ano de incenso.
Boa api.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Transumância – sim ou não


A transumância assume para alguns apicultores semiprofissionais e para profissionais uma importância de relevo. Embora alguns apicultores de dimensão considerável optam por não fazer transumância, a verdade é que a maioria aposta nesta vertente que pode se tornar num fator muito lucrativo.






Os benefícios

Na Califórnia existem plantações de amendoeiras de aproximadamente 47 mil hectares de área que mobiliza quase um milhão de colmeias para a sua polinização, ou seja quase metade de todas as colmeias existentes nos Estados Unidos. Se todos os apicultores portugueses fossem chamados a polinizar as plantações de amendoeiras na Califórnia com todas as suas colmeias, ainda seriam necessários outro tanto de colmeias para conseguir satisfazer essa demanda. Um apicultor que coloque 2000 colmeias a polinizar uma plantação de amendoeiras pode lucrar algo como 250 mil euros, ou seja, poderia o apicultor viver só dessa polinização “descansando” o resto do ano.
Campo de amendoeiras na Califórnia


Na Europa embora não exista grandes concentrações de áreas profissionalmente polinizáveis como nos Estados Unidos, já existem muitas monoculturas que contratam os serviços das abelhas. Em Portugal existem imensos apicultores que fazem transumância embora a maioria não receba por deslocar suas abelhas, certo é que as produções de mel podem triplicar ou até quadruplicar.

Nos Açores, a transumância que é praticada sobretudo para zonas de “conforto”, ou seja, o apicultor muitas vezes desloca suas colónias para apiários mais próximos de sua habitação na época baixa e redeslocando essas colónias para zonas de boa floração como por exemplo para o incenso. (deslocar um núcleo para uma estufa de ananás conta como transumância?)

Os custos

Tudo parece um mar de rosas até aqui: lucro monetário, altas produtividades etc. mas falta falar da parte dos malefícios. Transportar colmeias de uma zona para outra zona acarreta (como é que se chama aquilo?) custos! (é isso). O primeiro custo direto é mão-de-obra necessária para tais operações. Hoje utiliza-se muito as gruas mecânicas que diminuem muito a necessidade de mão-de-obra mas esta em nunca pode ser 100% dispensada por mais eficiente que possa ser a grua. Um outro custo direto destas operações é o aluguer ou, no mínimo, os combustíveis para as carrinhas ou camiões de transporte de colmeias. Estes são os custos diretos e óbvios da transumância, mas não se fica por aqui.

Um grande custo que muitas vezes é desconsiderado pelos apicultores que se iniciam na arte de transumar, é o número total de perda de colónias devido à deslocação. Isto deve-se em parte ao transporte das colmeias onde muitas vezes as abelhas não têm o devido arejamento, ou à rainha que morre esmagada, ou simplesmente ao stress do transporte que causa inúmeras baixas. É frequente observar no dia imediatamente a seguir ao assentamento das colmeias, muitas abelhas mortas em frente à colmeia. 
Um outro custo indireto da transumância é a qualidade da alimentação das colónias. Numa monocultura é frequente as abelhas ficarem desnutridas pela falta de variedade de alimento, mais especificamente no pólen. O pólen das flores é diferente em cada tipo de flor. Numa monocultura de girassol por exemplo, a variedade de pólen é nula. Ora, isso equivaleria para nós humanos que passássemos a comer simplesmente maçãs todos os dias. Embora seja um alimento saudável, viver só de maçãs vai nos trazer certamente muitos problemas de carências nutricionais. Nas abelhas, cuja esperança de vida se situa nos 45 dias nas épocas de maior atividade, equivale a viver alguns anos só de “maçãs”. O resultado disso são colmeias fracas com abelhas já a emergirem dos alvéolos debilitadas e vulneráveis a doenças e à morte precoce. O famoso fenómeno CCD tem sido atribuído por muitos pelo recurso excessivo à transumância. Um outro custo da transumância para monoculturas agrícolas, è a exposição das abelhas a agrotóxicos nefastos. Ou seja, para além das abelhas terem de viver só de “maçãs” estas “maçãs” ainda vêm com uma gota de veneno.

 A nível mundial muito se tem debatido sobre os efeitos nefastos da agricultura intensiva e mais cedo ou tarde, isto terá reflexão direta na sua zona de residência se é que já não se repercute. Não é sem motivo que um dos maiores apicultores dos Estados Unidos, Mike Palmer, com cerca de 15 mil colónias, deixou de recorrer à transumância para se tornar num apicultor fixista.

Nos Açores a questão de transumar ou não, não creio que seja uma questão central para o sucesso na apicultura. Mas precisamente por isso, os apicultores açorianos tem uma “obrigação” acrescida de escolher bem as localizações para seus apiários. O bom desempenho da sua apicultura está intimidante relacionado com este fator.

Uma excelente apicultura