segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Alimentação artificial – açúcar invertido



Chegados que estamos ao final da época apícola, resta-nos fazer um acompanhamento mais passivo do que ativo das nossas colónias de forma a garantir a que resistam ao inverno e entrem em força na primavera. Das poucas coisas que um apicultor pode fazer diretamente no apiário é garantir essa boa chegada à primavera por prover alimentação adequada, pois é com esta alimentação que precavemos que as colónias morram à fome ou como consequência das baixas reservas, que morram de frio. 


Há várias formas de confecionar alimento para as abelhas. Hoje resolvi fazer uma pequena dissecação acerca da alimentação energética que tem como base o chamado açúcar invertido. 


Existem diferentes formas de confecionar e administrar açúcar às colónias:
  • A mistura 1:2 ou seja, uma parte de açúcar e duas partes de água. Essa mistura é mais indicada para alturas em que o calor abunde e serve para estimular a postura da rainha.
  • Há a mistura 1:1, ou seja, uma parte de açúcar e uma parte de água que é a composição mais próxima do nível de teor de açúcar do néctar natural das plantas. Serve para as abelhas “puxarem” cera, para alimentar as larvas e para estimular a postura da rainha.
  • Há ainda a formula 2:1 ou seja, duas partes de açúcar e uma de água, o que cria um alimento mais solido, ideal para aplicar no inverno pois serve para as abelhas armazenarem esse alimento sem no entanto estimular em demasia a postura da rainha.*
 Independentemente dos racios utilizados, hà uma forma de fazer com que este alimento seja mais rico para as abelhas por "inverter" o açúcar. Mas o que é isso?


O que é o açúcar invertido

As abelhas ao visitarem as flores, coletam néctar rico em açucares simples (monossacarídeos), ou seja, grande parte deste açúcar é frutose e glicose. Apenas uma pequena percentagem (cerca de 5%) é sacarose (açúcar complexo designado dissacarídeo). Ora, o que acontece é que o açúcar branco é rico em sacarose. Para que se possa torna-lo em açucares simples é preciso ferver o açúcar em água, "partindo" assim a sacarose e tornando-o em açucares simples, glicose e frutose.O processo pode ser acelerado com a mistura de acido tartarico (vinagre) ou sumo de limão puro. Para além de ajudar na decomposição da sacarose, estes elementos ajudam a mistura a não oxidar tornando o prazo de validade do alimento mais prolongado.


Como preparar uma mistura de açúcar invertido

Imaginemos que você quer preparar alimento para simular a entrada de néctar para que suas abelhas desenvolvam a colmeia. Eis como eu o faço:
  1. Coloco pouco mais de 1 litro de água no fogão.
  2. Antes de levantar fervura coloco um 1kg de açúcar branco e adiciono  o sumo de metade de um limão ou adiciono 2 colheres de sopa de acido tartárico. Vou mexendo até tudo ficar completamente diluído.
  3. Após 15 ou 20 minutos de fervura em lume brando, retiro o xarope do fogão e deixo arrefecer.
A isto tudo eu costumo adicionar uma colher de levedura de cerveja misturado com o açucar pois nunca é demais dar um pouco de  protaína às abelhas.
Assim,  temos pronto o nosso xarope de açúcar invertido.
A razão de utilizar pouco mais de 1 litro de água prende-se que conto sempre com a evaporação de parte da água durante o processo de fervura. É importante que a fervura seja em lume brando pois quanto mais altas as temperaturas mais se desenvolve a molecula HMF (hidroximetilfurfural) que é toxico para as abelhas. Uma sugestão que é apontada mais recentemente é a de ferver por apenas 3 minutos [LEN03]. Mas em tão pouco tempo preciste a duvida se a "inversão" de açucar é significativa por isso continuo a optar por ferver por cerca de 15 minutos.


Alimentar nossas colónias com esse tipo de xarope facilita a aceitação das abelhas, aumenta o prazo de validade do xarope, é mais facilmente digerido pelas abelhas e fornecido às larvas e rapidamente estas reservas ficam "maduras" para as abelhas. 




* (Existem apicultores que defendem que a mistura 2:1 é uma especie de "anti-natura" pois na natureza não há um alimento energético para as abelhas com a compisição solida como essa. Argumentam que a energia que a abelha dispende para digerir e aquecer esse alimento é o mesmo que ganha nesses açúcares. Fica ao critério de cada um utilizar ou não este tipo de alimento sólido)
  
PS: Um bom vídeo de uma palestra que explica os riscos da alimentação com açucar invertido e não só. 


sábado, 8 de novembro de 2014

Buckfast - A abelha perfeita

"Não existe tal coisa como a abelha perfeita, ela tem de ser criada" - Brother Adam

Escusado será dizer que nos Açores não existem abelhas Buckfast, é proibida sua importação, é proibida sua criação e é proibido sonhar em ter qualquer exemplar deste híbrido.

Saudações apícolas.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Fatores de sucesso na apicultura intensiva



Colmeias fortes são a chave para boas produções de mel
Em continuidade do artigo anterior, enumero aqui alguns pontos chaves a levar em conta para uma apicultura mais intensiva do que um simples hoby de fim-de-semana. 


  Gosto pela atividade 

 

  Conhecimento

  • Fazer formações

Conhecer as principais florações melíferas;
Conhecer a biologia da abelha sabendo distinguir as melhores raças de abelhas para a sua região;
Conhecer a legislação apícola;
Saber onde e como instalar um apiário;
Etc.
  • Fazer um estágio ou acompanhar apicultores experientes nas suas idas ao campo.

  • Estudar muito, a Internet hoje põe tudo a nu.


  Estruturas adequadas à atividade

  • Sítios para implementação dos apiário

  • Dotar a exploração de transporte para movimentação de todo o material apícola.

  • Armazém ou armazéns para colmeias/alças/quadros/ceras/mel/pólen/bidons de mel /maquinas enfrascadoras , tanques de processamento de cera, etc;

  • Melaria ou UPP certificada para extração de mel


  Bom planeamento e organização

  • Tomar notas das operações efetuadas nas colónias

  • Planear de antemão o que fazer

  • Estabelecer prioridades

  • Tomar notas contabilísticas e estar a par do andamento das contas da exploração.


  Maneio

  • Saber reconhecer e atuar perante debilidades/doenças da colmeia

  • Fazer uma boa seleção de rainhas

Fazer criação de rainhas;
Saber identificar as boas matriarcas;
Utilizar bons métodos para uma boa percentagem de fecundação;
Reconhecer zonas de congregação de zangão e/ou estimular a criação de zangãos de colmeias selecionadas;
Bom plano de substituição periódica de rainha.
  • Adequar a exploração para aproveitamento das florações

Se necessário, estimular com alimento artificial o fortalecimento das colónias e usar o timing correto para tal;
Utilizar núcleos ou colónias saudáveis para fortalecer colmeias produtivas;
Transumar para zonas com melhores florações;
Colocação das alças nos timings corretos;
Se possível, fazer plantações melíferas relevantes nas proximidades de seus apiários.
  •  Bom plano para repor efetivo devido a potenciais perdas.

Fazer bom uso da prática de desdobramento utilizando núcleos.
Repor efetivo através da aquisição de núcleos ou packs de abelhas.
  •  Tratamentos das ceras

Bom plano de substituição de ceras;
Bom maneio no armazenamento das ceras “puxadas”.
  •  Em caso de produção de pólen, um bom plano diário de recolha e processamento do pólen.

  •  Crestar utilizando as regras de higiene e segurança alimentar.


  Promoção dos produtos

  •  Uso de meios publicitários

  •  Oferta de produtos de qualidade

     

Escoamento dos produtos

  • Contratualização com revendedores/distribuidores

  • Encaminhamento dos produtos para as cooperativas/associações



Basicamente, requer-se muito rigor ao aplicar cada um destes pontos. Nesta lista faltam obviamente itens nomeadamente a quem deseja se especializar em produzir sub-produtos da colmeia, como a geleia real, própolis, apitóxina e enxames, ou produzir rainhas em larga escala. Uma chamada de atenção especial para os métodos de controlo de enxameação, que com a devida experiência dos apicultores e boa seleção de rainhas, é um ponto que será naturalmente tomado em conta. Falta também algo que não pode ser desconsiderado de forma nenhuma que é o combate especifico à varrose embora seja focado na lista as doenças, esta é quase uma moléstia crónica e, como tal, merece um tópico especifico, mas, felizmente para mim, ainda não tenho que lidar com a varroa e como tal não sou especialista na matéria embora a tenha estudado e feito trabalhos com apresentações sobre ela. Admiro em especial o método de tratamento orgânico que é descrito e usado pelo Afonso Silva, autor do Blog Abelhas do Agreste. Mas sinceramente, não arrisco a aconselhar nenhum método pois nunca experimentei na pratica nenhum.