segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Bânccia - Uma floração improvável em outubro.

Fonte: http://www.azoresbioportal.angra.uac.pt

Uma floração que aparece logo após a altura da cresta nos Açores é a da famosa Cigarrilheira ou Bânccia (Banksia integrifolia L.). Trata-se de um arbusto muito utilizado em sabes devido ao seu crescimento rápido e é ideal para proteger culturas agrícolas pela sua enorme resistência ao vento e ao salgado do mar. Tem uma flor que faz lembrar a flor de Metrosidero ou mais propriamente seu primo "Limpa Garrafas" (Callistemon citrinus), só que em vez de avermelhado normalmente apresenta-se em tons de amarelo.

Flor da Bânccia
O meu maior gaudio para com esta planta (para além da quantidade de nectar) é a altura em que floresce, e diria que aparece numa altura crucial, onde começa a escacear as florações mais relevantes na maioria das ilhas dos Açores. É certo que em muitas zonas a partir de outubro podemos contar com a floração do Eucalipto, e da Nespereira, mas um reforço da Bânccia é muito bem vinda isto a fazer fé na quantidade de nectar que esse tipo de flores apresenta. No seu habitat de origem (Austrália) é uma planta que, tal como acontece com o Metrosidero, é polinizada por passaros o que atesta a sua enorme capacidade de produção de nectar.  Curioso foi observar que uma abelha pode ficar atestada de nectar sem ter de mudar de flor. Na observação exaustiva que fiz em busca das localizações desta flor, reparei que esta floresce muito mais em Bânccias "despresadas" ou salvagens do que propriamente nas Bânccias tratadas (roçadas) que formam as sebes.

A sua distribuição nos Açores é quase generalizada a todas as ilhas exceptuando-se as ilhas da Terceira, Pico e Corvo.
 

Distribuição da Banksia integrifolia L.
Fonte: http://www.azoresbioportal.angra.uac.pt


Interessante que desde criança sempre conheci esta planta pois brincava com as famosas cigarrilhas que produz a fingir de cigarros, mas nunca havia reparado na sua flor. O material que se forma após a  floração, (uma especie de pinha mal formada que me escapa o nome), também é muito bom para a combustão do fumigador. 



O unico senão da altura da floração é a falta de bom tempo. É preciso sol que permita uma recolha eficiente das nossas meninas a esta dádiva em tempo de escassez para assim não nos preocuparmos em demasia com a manutenção de reservas no inverno.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Incubadora de Rainhas

Uma das coisas que, na minha opinião, deveria fazer parte da essência do ser-se apicultor, é a predisposição para partilhar conhecimento. Eu pessoalmente beneficiei de inúmeras informações que foram sendo divulgadas em formações, blogues, vídeos, livros, sites e por partilha direta de apicultores mais experientes.  Com esse espírito, foi partilhado no blogue "Contos do Mestreiro" informação detalhada de como construir uma incubadora de rainhas onde se  pode poupar mais de 1000€ pois os preços destas incubadoras são, como se sabe, elevadíssimos. Ora vejam...

http://contosdomestreiro.blogspot.pt/2014/07/incubadora-de-mestreiros.html

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Açores e a exportação de enxames

Um vídeo onde é demonstrado que as mais-valia das abelhas açorianas já são reconhecidas no arquipélago vizinho. Esperemos que sejam os primeiros passos de muitos mais...  

sábado, 6 de setembro de 2014

Desdobramentos dentro do mesmo apiário




Umas das coisas que senti necessidade quando ainda tinha apenas um apiário, foi de poder fazer sem riscos os desdobramentos que necessitava. Meu primeiro apiário situa-se num local cujo acesso não está 100% disponível de carro o ano inteiro. Fica situado após uma pastagem com cerca de 100 metros com uma pequena inclinação. Assim, quando a erva da pastagem está alta, torna-se inviável aproximar-me de carro ao apiário. Depois, transportar colmeias ou mesmo núcleos por 100 metros é terrível, dissuadindo qualquer apicultor. Ainda mais, eu só tinha 2 colmeias quando iniciei a atividade, não se justificando obter na altura mais apiários. Mas cedo senti a necessidade de fazer desdobramentos para aumentar efetivos. Existem alguns métodos de fazer desdobramentos dentro do mesmo apiario. Quanto ao que eu usei e que passo a descrever, não me lembro se o li em algum lado ou apenas foi fazendo experiências, mas eis como fui fazendo: 
Quando a colmeia a ser desdobrada estava forte, eu fazia como em qualquer desdobramento, retirava um quadro de criação operculada, um com larvas e ovos e outro misto, todos com as respetivas abelhas, depois reforçava com mel e pólen nas laterais. Se necessário, reforçava com mais abelhas de outros quadros. Ai começam as diferenças dos métodos de levar o núcleo para outro apiário, é que normalmente leva-se esse recém-constituído núcleo para longe, para outro apiário, a 3 km no mínimo. Eu de minha parte tive então de fazer experiencias. Em vez de retirar o núcleo sem rainha para longe, deixava-o no sítio da colmeia original, e retirava a colmeia com a rainha e colocava ligeiramente mais afastada.
 Experimentei varias distancias e a que me pareceu melhor foi a de deixar a colmeia original com a rainha cerca de 50 cm do sítio original, ou seja, praticamente ao lado. Quando as campeiras voltavam do campo deparavam-se com um núcleo no lugar da colmeia e notava-se uma certa hesitação das abelhas em entrar, fazendo com que algumas fossem para a colmeia com a rainha, mas também um grande número de campeiras entrava no núcleo. O número de campeiras ficava assim mais ou menos dividido. Ora, há no entanto algumas coisas que contribuem para a escolha das campeiras por determinada colónia. Antes de qualquer manobra de desdobramento a colmeia a se desdobrar deve estar isolada de outras colmeias, pois isso facilita a divisão posterior das campeiras. Quando assim não é feito e há uma colmeia ao lado da colmeia a desdobrar, depois de se efetuar o desdobramento, as abelhas que veem do campo vão partir do pressuposto que a colmeia original não é a sua, mas sim a que estava ao lado da sua, não entrando nela e indo todas parar ao núcleo. 

O ideal seria não haver colmeias (mesmo que sem abelhas) ao lado da colmeia a desdobrar e depois de então ter sido feito a divisão, trocar a posição da colmeia que ficou com a rainha com o núcleo resultante. 
Depois de feito o desdobramento trocar a posição da colmeia mãe e o núcleo para confundir e dividir as campeiras.


É um método que resultou para mim, aumentei nesse ano o meu efeticvo em 500% (2 + 500% = 12. [Espero que seja assim que se faça essa conta]) mas devo acrescentar que no ano em que fiz isso não tinha preocupações em produzir mel pois tinha definido que seria um ano de investimento para aumentar efetivo. Mesmo que as colonias ficassem desequilibradas em número de campeiras, isso não me preocupava muito. Não se trata de uma ciência exata porque como sabemos o que resulta para uns pode não resultar com outros até porque as raças de abelhas diferentes têm comportamentos diferentes perante a mesma situação e a deriva das iberiensis tem menos pergaminhos que a linguística.


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Apiário auto-sustentavel por Mike Palmer



Mike Palmer neste vídeo destaca a importância de fazer núcleos para suportar as colmeias produtivas sem recorrer a transumancia mas mantendo a rentabilidade. Ele explica como esses núcleos são uns autênticos mini reatores de fabricação de cera, criação, abelhas adultas, rainhas, reposição de efetivo, entre outras vantagens sem nunca sacrificar as colmeias produtoras de mel e pólen, pelo contrário, só fortalecem a essas.
Excelente palestra. Para quem percebe americanês pois legendas são por um canudo :)

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Rainhas novas e produtivas.



Hoje foi dia de marcar rainhas. As fecundações correram bem apesar do atípico frio do mês de abril. As rainhas foram à fecundação mal começou o bom tempo. Agora é continuar a alimentar para que formem colónias fortes a ver se ainda vão a tempo de fazerem reservas para o (meu) inverno. Amanhã começo a limpeza do meu futuro apiário que apesar de estar a mais de 300 metros de altitude (em S. Miguel é uma altitude quase proibitiva para criação de abelhas), tenho confiança que no verão vai ser um excelente apiário para produção de mel. A ver vamos.

sábado, 26 de abril de 2014

Desdobramentos em abril chuvoso e frio

Abril tem se revelado um mês bastante chuvoso como é de costume, mas tem apresentado temperaturas abaixo do normal. Com tais condições, muitos apicultores açorianos optam por adiar os desdobramentos para o mês de maio ou ainda lá mais para o verão. Optei por faze-los já em abril por 2 motivos: 1º não farei criação de rainhas (pelo método Doolittle), simplesmente multiplicarei as colonias e esperarei as abelhas criarem naturalmente as suas mestras, isso dará tempo para que a temperatura aumente apesar de já haver alvelos em desenvolvimento. E 2º visto que tenho colmeias reversíveis e o mês de março ter-se mostrado um mini verão cheio de floração, a febre de enxameação veio mais cedo e mostrando-me elas que queria enxamear, desdobro-as eu e não perco efetivo e evito ter mestras de alvéolos de emergência que originariam certamente rainhas de má qualidade. Em um dos desdobramentos a rainha já nasceu. Agora é esperar que esses dias a temperatura suba um pouco para permitir a fecundação.
Colmeia com febre de enxameação em principios de março.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Prevenção de enxameação (método de “arrefecimento do ninho”)

Uma das características da Apis mellifera iberiensis é a sua propensão para a enxameação. Existem algumas formas de prevenir este fenómeno. Abrir o ninho duma colmeia é mexer no coração desta, dai a importância do maneio adequado nesta zona crucial para o bom desempenho da colonia.
A técnica de arrefecimento do ninho é muito utilizada pelos apicultores pois para além de prevenir a enxameação, ainda permite a substituição de ceras. Esta é uma técnica onde quadros com cera alveolada são colocados entre os quadros de ninho. Com isto, retarda-se a enxameação, substitui-se ceras do ninho e impulsiona-se a postura da rainha.
Aqui estão os passos básicos:
·         Ao primeiro sinal de cera branca perto do topo dos quadros de ninho é sinal que se pode começar a utilizar esta técnica de maneio.
·         Deve-se retirar um dos quadros perto do meio da câmara de criação. Este espaço deve preencher-se de abelhas dentro de cerca de cinco minutos. Se isso não acontecer, é muito cedo para introduzir este método porque não há abelhas suficientes para puxar ceras rapidamente. Espere até que a colmeia fique mais forte.
·         Supondo que o espaço vazio se enche de abelhas rapidamente, devemos devolver o quadro para a mesma posição.
·         Retire um quadro de uma das laterais (sem criação) para fora da caixa, e empurre os quadros restantes para o lado, deixando o espaço vazio perto do meio do ninho.
·         Coloque um novo quadro com cera alveolada no espaço vazio. As abelhas vão agora dirigir sua energia para a puxar a cera e preencher o ninho de criação em vez de enxamear.
Notas:
Dependendo da força da colmeia, um ou talvez dois quadros de cera alveolada pode ser adicionado à caixa de ninho. Cada quadro vazio deve ter criação de cada lado de preferência operculada.
Se todos os quadros do ninho já têm criação, deve-se colocar um destes na parte central do sobre-ninho.
Para ser bem-sucedido com este método, talvez você tenha que reabrir o ninho e adicionar novos quadros todas as semanas enquanto durar a temporada de enxameação, ou seja, requer-se um monitoramento constante.
O timing para aplicar esta técnica é muito importante. Isso deve ser feito antes do impulso enxameador começar ou é completamente ineficaz. Por outro lado, se aplicar o método muito cedo pode perturbar o normal funcionamento da criação comprometendo a vigor da colmeia.

 Quando o ninho está dividido (e de facto estará por um período de tempo) necessitará de mais abelhas para manter a criação aquecida. Uma noite fria inesperada logo após a aplicação desta técnica poderia devastar a colônia. Então, se você decidir experimentar este método de controlo de enxameação, deverá fazê-lo com cautela: Ver cuidadosamente a força da colônia e prestar muita atenção as condições climáticas.

(baseado no artigo: http://www.honeybeesuite.com/how-to-open-the-brood-nest/)

terça-feira, 1 de abril de 2014

Algo pior que varrose...

Uma das alturas mais importantes no panorama da apicultura açoriana começa precisamente por esta altura, mais precisamente no final do inverno e estende-se até à primavera. Trata-se da floração do incenso que origina um mel Monofloral único no mundo. Comercializado a preços mais elevados do que o mel Multifloral, este ‘néctar dos deuses’ pode ser considerado como sendo uma grande dádiva que vem colmatar a falta de “dádivas” a que os apicultores nacionais e em particular os açorianos estão sujeitos por parte do ministério da agricultura e suas sucursais regionais. Quero com esta introdução mostrar o paradoxo que existe entre as boas condições para criar abelhas e as más condições providas por quem deveria ajudar, tudo isto neste espaço geográfico tão pequeno chamado Açores. Ora vejamos do que venho aqui tratar hoje:
  1.       Em S. Miguel nos Açores não se promove como se devia a apicultura de tal modo que sugiro que o laboratório de inseminação artificial de rainhas seja cedido a algum privado que faça uso dele. Se não funciona, feche-se! O mesmo acontecendo com a parte do tratamento das ceras e que se extinga de vez a secção apícola dos serviços de desenvolvimento agrário de S. Miguel. Formações podem e são feitas pela cooperativa Casermel e por outros privados. De resto não há mais utilidade em manter a referida secção apícola que só gasta dinheiro público e não faz absolutamente nada de relevante. Quantas vezes um apicultor se desloca aos referidos serviços para trocar cera e não há ninguém a atender. Queremos registar um apiario e não conseguimos porque não há ninguém que o faça (quando o funcionário está de férias) e reencaminham nos para outro gabinete e lá ninguém percebe de apicultura nem tem os programas para registo e reencaminham nos de novo e nunca mais saímos disso. A vontade não é deixar de registar os apiários? A mim já deu essa vontade. Há ceras no mercado regional que são vendidas sem passarem pela obrigatória esterilização e há pleno conhecimento disso mas não se faz nada. As pesquisas que são necessárias ao desenvolvimento da apicultura local podem e devem ser feitas pela Universidade dos Açores visto que de mais nenhum lado surgem resultados de pesquisas. Se não funciona e só serve para gastar dinheiro ao erário público: Feche-se!
  2.        Não sei que novas medidas de apoio serão dirigidas aos apicultores da região mas espera-se realmente uma franca melhoria em relação ao antigo programa de apoio, a saber, o pro-rural. Este referido programa é a versão açoriana do ProDer mas que foi modificado para atender às especificidades dos Açores. Ou seja, perdeu-se uma grande oportunidade pelo menos no que toca a área apícola. E porque digo isso? Ora vejamos:

  •        No continente português um apicultor apenas precisa de encontrar e contratualizar 2 bons terrenos para implementar 200 colmeias, o mínimo para iniciar uma atividade profissional com potencial para gerar um salário mínimo nacional ao apicultor. Nos Açores, para se obter o mesmo número de colmeias, o apicultor teria de contratualizar no mínimo 8 apiários pois só pode ter 25 colmeias por apiário no máximo. Logo ai o apicultor açoriano fica em desvantagem em relação aos seus colegas continentais. Terá de falar com os donos dos terrenos onde tem as abelhas e pedir a todos que assinem um contrato de cedência por empréstimo. Todos nós sabemos a aversão que um dono de um terreno tem em assinar este tipo de contrato. Se por outro lado o apicultor decidir arrendar os espaços, terá de necessariamente fazer um projeto de maior envergadura para poder pagar as rendas e aí já não seriam 8 apiários mas mais uns quantos. O pro-rural, onde era suposto ajustar o Proder às especificidades dos Açores nada alterou neste ponto e por isso ficamos em clara desvantagem. Não seria vantajoso que se apostasse em apoiar também os pequenos apicultores que não tem possibilidade de ter mais apiarios mas que poderiam melhorar as suas explorações? Não é este país onde mais de 95% dos apicultores são amadores? Apoie-se (digo eu) também  a estes!
    Prespetiva de Financiamento Pro-rural para apicultura.
  •          Um ponto na portaria que regulamentava a atribuição do apoio Pro-rural, (artigo 6º alínea d) obrigava a que o projeto começasse a ter viabilidade económica para gerar um salário mínimo nacional pelo menos volvidos 3 anos do início da implementação do projeto. Não sei como se processa a implementação dum projeto de pecuária mas um projeto apícola nos Açores dificilmente terá essa viabilidade volvidos apenas 3 anos. Eu diria que uma exploração apícola precisaria para gerar tal lucro no mínimo dos mínimos 4 anos. Se não, façamos a seguinte simulação: no 1º ano imaginemos que um apicultor procura comprar enxames de abelhas no mercado fechado dos Açores (não se pode, e bem, importar enxames). Imaginemos que consegue que lhe vendam 20 enxames (acreditem, conseguir 20 enxames num ano, é obra em S. Miguel, imagine-se nas outras ilhas mais pequenas.) No 1º ano não faz desdobramentos pois comprou enxames em núcleos como é normal por estas paragens. No 2º ano imaginemos que tem sorte com as condições climatéricas e consegue desdobrar esse número inicial por 3 resultando em 60 enxames e adquire mais 30 enxames. Ou seja, passa a ter 90 enxames (isto com uma taxa de sobrevivência de 100% que como sabemos é quase impossível). No 3º ano dizia o Pro-rural que era para apresentar resultados, um salário mínimo nacional no mínimo. Com 90 enxames o apicultor depara-se com um dilema: faz desdobramentos e  não tira mel mas atinge as 200 colmeias exigidas, ou tira mel mas não atinge lucro pretendido para pagar o seu salário. Mesmo se optar por fazer apenas um desdobramento por colónia ele conseguirá obter as quase 200 colmeias mas certamente não conseguirá retirar mel suficiente para já no 3º ano gerar no mínimo o seu salário. A agravar tudo isto ainda existe aquela famosa recomendação (quase obrigação) na apicultura: ‘nunca trabalhar sozinho num apiário’, logo, o projeto deverá prever um empregado pelo menos na fase critica. Mas para pagar mais uma pessoa já não se requer apenas 200 colmeias em 8 apiários. Serão necessários muitos mais apiarios e muitas mais colmeias. Como conseguir tudo isso em apenas 3 anos nos Açores? Estava o pro-rural adaptado realmente às especificidades dos apicultores açorianos? Na parte referente a apicultura, diria que este foi um copy past do PRODER, ou seja, não estava adaptado de forma nenhuma à apicultura regional.

 Com todos esses obstáculos ultrapassados, acreditem, é apenas o começo. A burocracia exigida para apresentar e executar um projeto destes é um verdadeiro desafio. E pensava eu que para se ser apicultor tínhamos de saber trabalhar com abelhas. Burrice a minha...
É verdade que nos Açores não temos varroa na maioria das ilhas e é porventura dos últimos sítios do planeta onde ainda não o há, e temos colmeias em criptoméria fantásticas que duram 3 ou 4 vezes mais que as dos colegas continentais e temos excelentes florações praticamente todo o ano e um mel monoflororal de incenso único no mundo. Num Éden como este, adivinhem quem faz de serpente. E viva o parente pobre da agricultura. 



Saudações Apícolas.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Como instalar um apiário




Instalar um apiário hoje em dia na ilha de S. Miguel é complicado e cada vez mais, isto, devido à falta de lugares disponíveis ou disponibilizados para implementação de apiários na ilha. Há quem aponte como solução a redução das distâncias entre apiários. Pessoalmente discordo profundamente da alteração dessa lei porque apenas iríamos colocar problemas semelhantes aos que hoje existem no Continente, a saber, a densidade excessiva na implementação das colmeias. Há zonas em Portugal Continental em que os apicultores têm de recorrer a alimentação de emergência durante o inverno para colmatar a falta de alimento para as abelhas na natureza. E depois claro que também as produções tem sido muito mais reduzidas.
Voltado ao assunto em pauta, para os felizardos que ainda conseguem terrenos para implementar apiários e sobretudo para os novos apicultores, (pois é velos por ai aos magotes, provavelmente devido à onda de desemprego que se faz sentir) vou tentar fazer um pequeno resumo das regras básicas de instalação de apiários. Na verdade, instalar um apiário nos Açores não difere muito de instalar um apiário no Continente, ou em Espanha ou em outro lugar qualquer. A única coisa que difere são as distâncias regulamentares.
O terreno onde será implementado o apiário deverá ser de bom acesso que possibilite a aproximação de um veículo para o transporte de material, pois acreditem, um apiário longe dos meios de transportes tem fama de abrir muitas e muitas dores nas costas dos apicultores. O terreno deve ser plano e, se não for, o apicultor deverá fazer com que fique, pelo menos na zona onde irão assentar as colmeias. As colmeias devem dentro do possível ficar voltadas para o lado onde o sol nasce. Se isso não for possível, então o sul poente deverá ser a segunda melhor opção. Em outros sítios do planeta há quem as vire para outras direções, mas sinceramente não tenho conhecimento dos resultados desse tipo de montagem. O que se sabe é que uma colmeia sobre a qual o sol incide na tábua de voo logo pela manhã, as abelhas campeiras dessa colónia são estimuladas a começar o trabalho logo cedo. É prudente deixar um espaço atrás das colmeias que possibilite a aproximação e meneio do apicultor sem ter de passar pela frente das colónias. Isto é importante não só para segurança do apicultor, mas para não interferir com as abelhas campeiras que estão a regressar do campo.  As colmeias nunca devem ficar junto ao chão pois isso provocaria um desgaste prematuro no material e atrai mais facilmente formigas e outros bichos que importunam as abelhas, para além da humidade a que o enxame fica sujeito. Assim, deve-se elevar as colmeias do chão uns 20 a 50cm para um bom manuseamento. Podem usar-se blocos de cimento com vigas em madeira ou em ferro a fazer de suporte para as colmeias. Os blocos pintados não absorverão tanta água protegendo assim as vigas em madeira. As vigas a ser em madeira devem ser fortes pois uma colmeia cheia de mel pode atingir um peso superior a 50 kg. Lembre-se que o principal inimigo que temos nos Açores para as colónias é a humidade. Mais do que o vento, mais do que o frio, é a humidade que pode dizimar um enxame, e, nos Açores, a humidade é uma constante, por isso a escolha de um local para o apiário deve ter em conta esse fator. Zonas onde habitualmente existe nevoeiro, devem ser evitadas para instalação de apiários. Por exemplo, as Sete Cidades em S. Miguel é uma zona com excelente floração, talvez dos melhores sítios da ilha neste aspeto. No entanto, é sabido que a viabilidade de criação de abelhas nesta zona é reduzida. Mesmo quem lá tem apiários, normalmente retira-os por altura do inverno. Em contraste, o Nordeste que apesar de ser uma das zonas mais frias da ilha, é viável manter lá um apiário todo o ano sem grandes problemas pois trata-se dum Conselho que tem um clima seco. O frio açoriano faz moça apenas em colónias pequenas que não têm abelhas suficientes para se aquecerem ou com reservas insuficientes. 
 Por lei os apiários devem ser rodeados em todos os lados com sabes vivas ou muros com 2 m de altura no mínimo. Posso dizer que é raro o apiário que cumpre com essa regra, por isso se não for possível, essa será a primeira e se calhar a única lei que deverá desconsiderar. (No entanto, se apanhar uma multa, não diga que fui eu quem disse isso :P) Mesmo que desconsidere essa lei, convém sempre ter em atenção que é preciso proteger pessoas e animais da “fúria” das abelhas. Infelizmente em S. Miguel as nossas abelhas são todas híbridas e não há inseminação artificial e como tal é difícil fazer uma seleção genética de abelhas mansas. Outros tempos houve em que tínhamos a abelha italiana em estado puro, uma raça extremamente mansa, mas que não se conseguiu perpetuar devido ao espaço geográfico a que estamos limitados e aos fundos públicos investidos num laboratório de inseminação artificial que em vez de abelhas, está às moscas. Assim, sendo as nossas abelhas relativamente agressivas como geralmente o são, é necessário ter cuidados, nomeadamente por colocar vedação sempre que possa haver pessoas ou animais por perto. A situação ideal relativamente à sobra necessária de verão ou ao Sol desejado de inverno, é colocar o apiario debaixo de uma latada de vinha ou Castanheiro pois no verão tais plantas fornecem sombra com as suas folhas caducas e no inverno perdem-as permitindo a passagem dos raios solares. O apiário deverá ser instalado no mínimo a 50 m de qualquer habitação ou estrada (excetuam-se caminhos agrícolas). Deverá ter uma distância mínima do apiário mais próximo de 500 m e não deve exceder as 25 colónias. (Núcleos equivalem a 0,5 colónias). Não menciono a água que deverá estar sempre disponível para as abelhas pois, excetuando-se se calhar Sta. Maria, a água nos Açores é uma constante não constituindo grandes problemas. O apiario deverá conter o número de apicultor num local bem visível. Obviamente, antes de instalar o apiário deverá regista-lo nos serviços de desenvolvimento agrário da sua ilha.