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quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Pode a apicultura ser um negócio rentável?



Formas de fazer dinheiro fácil são "o pão nosso de cada dia" nas publicidades enganosas (ou não) que proliferam na Internet. A oferta é apelativa, afinal, quem não gostaria de ter uns trocos extra na carteira ao fim do mês? Com a recente crise e com o natural colapso de muita empresas, muitos vêem o regresso à agricultura como um dos poucos  meios ainda ao dispor das populações para fazer algum dinheiro. Dentro da agricultura, uma das áreas de quem os "eruditos" dizem que pode ser das mais rentáveis é a apicultura. Os apicultores torcem o nariz a esses dizeres…

Uma perspetiva macabra.

Pesquisando mais uma vez na Internet sobre apicultura à procura de tópicos que falem da sua rentabilidade, somos na maior parte das vezes bombardeados com conselhos de apicultores experientes e até outros menos experientes, a nos dizerem para não nos metermos na apicultura "de cabeça". A aconselharem a não recorrermos a um projeto com ajudas estatais e comunitárias. Conselhos a nos dizerem para nunca entrarmos no negócio das abelhas com um empréstimo a crédito. Na maior parte das vezes basicamente somos aconselhados a termos meia dúzia de colmeias no quintal e vivermos felizes com isso. O próprio C.C.Miller (pai do 'metódo Miller' da criação de rainhas e uma referência mundial na apicultura) disse: "devo dizer que apicultura é um bom negócio para se deixar em paz, com as mesmas capacidades físicas e intelectuais que você usa para viver de apicultura, você seria capaz de viver muito melhor de qualquer outro trabalho." (A Thousand answers to beekeeping questions edição de 1917  Pagina 18)  É o cenário assim tão mau como se pinta?

Os problemas da profissionalização

Ter meia dúzias de colmeias no quintal, posso garantir, na maior parte das vezes, é rentável. Então, se é rentável no quintal, porque não poderá ser rentável em “vários quintais”. Bem, primeiro porque no nosso quintal não gastamos combustível para visitar e cuidar das colmeias. No quintal, e com meia dúzia de colmeias, conseguimos monitorizar todas, aumentado em muito as hipóteses de sucesso. No quintal, se falharmos, podemos ter um prejuízo razoável,  Em “vários quintais”, isto seria um prejuízo muitas vezes irrecuperável até porque não podemos esquecer que temos de pagar o investimento. O que poderá falhar?

O conhecimento

Para que suas colmeias no quintal possam produzir e gerar lucro, é preciso que você, o apicultor, saiba lidar com as abelhas. É preciso saber detetar doenças, rainhas velhas, reconhecer boas florações melíferas, utilizar o meneio adequado a cada estação, etc. etc. Para saber lidar com todos esses pontos é preciso saber trabalhar com abelhas. Portanto, se você está interessado em ser apicultor profissional, tenha muito, mas mesmo muito conhecimento sobre abelhas. Faça formações, trabalhe com quem sabe, aprenda e aprenda muito antes de avançar. Este é um dos fatores chaves para o sucesso. Mas não é o único.

O gosto pelas abelhas

Aprender algo que não gostamos pode ser frustrante. No curso de apicultura que frequentei, numa turma de 20 alunos, apenas 2 se tornaram apicultores. Houve (sem exagero) quem tivesse terminado o curso de duração de 1 ano meio, a lidar com abelhas quase diariamente, que não sabia distinguir um Bombus de uma abelha melífera. Porquê? Falta de gosto pela atividade. Eu não recrimino. A maioria não estava ali por escolha mas sim por imposição. Quantas vezes nós já não nos metemos numa coisa por gosto mas que ao fim de um certo tempo perdemos a “pica” da coisa? Eu quando me iniciei adquiri umas colmeias velhas feitas à mão por um ex-apicultor que desistiu da atividade. Reparei no trabalho manual que aquele apicultor teve outrora ao fazer aquelas construções. Foi certamente o gosto pela apicultura que o moveu a ser tão minucioso nos pormenores da construção daquelas caixas, fundos e tampas para abelhas. Mas, um dia ele desistiu e ofereceu as colmeias ao primeiro que se mostrou interessado em adquiri-las de graça. Portanto, antes de pensar em ser apicultor profissional, tenha as tais “meia dúzia de colmeias no quintal” e verifique se ama mesmo a apicultura. A apicultura é um trabalho muito duro, cheio de altos e baixos nos sucessos. Verifique se consegue lidar com isso.

Rentabilidade

Como é referido, e bem, por muitos apicultores, a maior riqueza que se pode ter da apicultura é precisamente viver ao lado de uma coisa que gostamos muito de fazer, vê-la crescer, cuidar dela, estar com ela “diariamente”. Mas, e se quisermos fazer desse amor o nosso emprego a tempo inteiro? Bem, não é sem razão que muitos alertam para os perigos de nos metermos "de cabeça" nesta atividade. Apicultura é uma atividade agrícola que está sujeita a muitos fatores. Um mau ano climático pode fazer de uma colmeias que produziu 40 kg o ano passado, produzir zero este ano. Agora veja isso numa escala grande. Se você tiver um empréstimo bancário para 300 colmeias e num determinado ano seu lucro for zero ou perto disso, como poderá pagar suas obrigações? E o que você comerá neste ano? No tal quintal com meias dúzia de colmeias ainda nos conseguimos safar num mau ano, mas com 300…

Se conseguirmos minimizar o impacto nefasto das falhas nos pontos chaves de sucesso, ter uma apicultura rentável é bem possível. As produções médias de mel de uma colmeia podem se situar nos 20 kg/ano nos Açores. As cooperativas locais oferecem preços a rondar desde os 3 aos 5€/kg. no continente português essa oferta  ao mel a granel rondara os 2,5 a 3€/kg (isto não mencionando valores referentes a mel DOP ou Biológico). Uma colmeia ainda pode produzir um ou dois subprodutos como o pólen ou própolis. Num ano e sem grande impacto nas produções, ainda pode nos dar um novo enxame. Faça as contas e veja. Se seu quintal é lucrativo, vários quintais podem ser muito mais. Mas se o objetivo é ficar rico, desengane-se, é muito mais fácil ficar rico noutra atividade qualquer do que na apicultura, mas se quer viver do seu trabalho, sim, é possível, arriscado, mas possível. Qual o caminho então? Não me arrisco a indicar um caminho especifico, mas sugiro que veja a possibilidade de crescer de uma forma sustentável. Começar devagar e ir expandindo a exploração conforme as possibilidades será porventura a forma menos arriscada. Programas como o PRODER/PDR ou o PRO-RURAL são uma alternativa bem mais arriscada. Só não tanto arriscada como a de concorrer a "solo" a um crédito bancário.



O caso Açoriano

(Se o leitor não é Açoriano, este post já acabou para si. Agora uma parte dirigida aos leitores Açorianos deste blog:)
Não seria a primeira vez que eu, autor deste blog, criticaria as entidades competentes na área apícola nos Açores. Há trabalho feito pelas cooperativas e um muito péssimo trabalho feito pelas entidades governantes.  Que tem a ver com a rentabilidade apícola? Tudo! 

É com gosto que acompanho muitos blogs apícolas nacionais e estrangeiros e vejo o crescimento das explorações apícolas, os seus sucessos e falhanços. Há muitas e muitas criticais ainda a fazer a nível nacional pelo fraco desenvolvimento da apicultura. Mas mesmo assim ainda há condições para apurar raças melíferas produtivas. Há condições para fazer transumância. Há condições para se ter um apiário de 100 colmeias desde que a floração o permita. Em contraste, nos Açores não há transumância a sério pois não se justifica pela dimensão das ilhas. (Embora neste caso seja a geografia a culpada, a verdade é que lá se vai um dos fatores chaves de sucesso na apicultura profissional 'por água abaixo').

 Não há importações de material genético para rainhas mais produtivas, e pior, não há apuramento genético do que já existe no arquipélago. (Lá se vão dois fatores chaves de sucesso para uma apicultura profissional). Não que eu defenda a reabertura do mercado de enxames, nada disso, mas tendo em conta a dificuldade em selecionar material genético com as abelhas locais, não deveriam os serviços agrícolas,  que deveriam existir para servir os apicultores/agricultores, tomar a dianteira neste assunto? E que tal dar vida ao santuário, perdão, laboratório de inseminação artificial pago com dinheiros públicos mas que não funciona nem há perspetivas de que alguma vez funcione?  As ilhas Canárias têm um dos materiais genéticos apícolas de maior excelência do mundo. Alguma semelhança com os Açores é literalmente pura coincidência. Os serviços agrícolas tem em sua posse várias colmeias, mas não há informação de quaisquer resultados decorridos dessa posse. A pergunta que fica no ar para quem começa a ficar por dentro da realidade apícola na ilha de S. Miguel é: De que forma a secção apícola serve os apicultores da ilha afinal? Eu não sei. Alguém sabe? Será que tem isso a ver com o facto de haver muitos apicultores a trabalhar na referida secção? Todos sabemos que ha muita inimizade entre alguns apicultores. Se alguém está a se servir do cargo que ocupa para se benificiar pessoalmente ou prejudicar outros que seja verificado. Como diz o povo,  onde há fumo, há fogo. E há muito fumo no ar.

 Nos Açores só são permitidos 25 colmeias por apiário. Porquê 25? Porque não 40 ou 50? Porque não se discute esses assuntos com os apicultores? (bem, com isto, já se vão 3 fatores chaves de sucesso para uma apicultura profissional pelo cano abaixo).

Pesquisas necessárias para um real levantamento do potencial melífero dos Açores tem sido feitas todos os domingos de tarde na Papua Nova-Guiné desde os anos 20, não se sabe é dos resultados das pesquisas, mas que têm sido feitas, lá isso têm. Um reencaminhamento dos fundos destinados a pesquisas, direcionados exclusivamente ao departamento de Biologia da Universidade dos Açores seriam, digo eu, um bom princípio.


Com a sua geografia,  mesmo assim será possível apicultura profissional nos Açores? Bem, nas ilhas maiores e apenas nestas, há umas 3 explorações profissionalizadas e mais umas quantas semiprofissionalizadas. Tire suas próprias conclusões…

terça-feira, 1 de abril de 2014

Algo pior que varrose...

Uma das alturas mais importantes no panorama da apicultura açoriana começa precisamente por esta altura, mais precisamente no final do inverno e estende-se até à primavera. Trata-se da floração do incenso que origina um mel Monofloral único no mundo. Comercializado a preços mais elevados do que o mel Multifloral, este ‘néctar dos deuses’ pode ser considerado como sendo uma grande dádiva que vem colmatar a falta de “dádivas” a que os apicultores nacionais e em particular os açorianos estão sujeitos por parte do ministério da agricultura e suas sucursais regionais. Quero com esta introdução mostrar o paradoxo que existe entre as boas condições para criar abelhas e as más condições providas por quem deveria ajudar, tudo isto neste espaço geográfico tão pequeno chamado Açores. Ora vejamos do que venho aqui tratar hoje:
  1.       Em S. Miguel nos Açores não se promove como se devia a apicultura de tal modo que sugiro que o laboratório de inseminação artificial de rainhas seja cedido a algum privado que faça uso dele. Se não funciona, feche-se! O mesmo acontecendo com a parte do tratamento das ceras e que se extinga de vez a secção apícola dos serviços de desenvolvimento agrário de S. Miguel. Formações podem e são feitas pela cooperativa Casermel e por outros privados. De resto não há mais utilidade em manter a referida secção apícola que só gasta dinheiro público e não faz absolutamente nada de relevante. Quantas vezes um apicultor se desloca aos referidos serviços para trocar cera e não há ninguém a atender. Queremos registar um apiario e não conseguimos porque não há ninguém que o faça (quando o funcionário está de férias) e reencaminham nos para outro gabinete e lá ninguém percebe de apicultura nem tem os programas para registo e reencaminham nos de novo e nunca mais saímos disso. A vontade não é deixar de registar os apiários? A mim já deu essa vontade. Há ceras no mercado regional que são vendidas sem passarem pela obrigatória esterilização e há pleno conhecimento disso mas não se faz nada. As pesquisas que são necessárias ao desenvolvimento da apicultura local podem e devem ser feitas pela Universidade dos Açores visto que de mais nenhum lado surgem resultados de pesquisas. Se não funciona e só serve para gastar dinheiro ao erário público: Feche-se!
  2.        Não sei que novas medidas de apoio serão dirigidas aos apicultores da região mas espera-se realmente uma franca melhoria em relação ao antigo programa de apoio, a saber, o pro-rural. Este referido programa é a versão açoriana do ProDer mas que foi modificado para atender às especificidades dos Açores. Ou seja, perdeu-se uma grande oportunidade pelo menos no que toca a área apícola. E porque digo isso? Ora vejamos:

  •        No continente português um apicultor apenas precisa de encontrar e contratualizar 2 bons terrenos para implementar 200 colmeias, o mínimo para iniciar uma atividade profissional com potencial para gerar um salário mínimo nacional ao apicultor. Nos Açores, para se obter o mesmo número de colmeias, o apicultor teria de contratualizar no mínimo 8 apiários pois só pode ter 25 colmeias por apiário no máximo. Logo ai o apicultor açoriano fica em desvantagem em relação aos seus colegas continentais. Terá de falar com os donos dos terrenos onde tem as abelhas e pedir a todos que assinem um contrato de cedência por empréstimo. Todos nós sabemos a aversão que um dono de um terreno tem em assinar este tipo de contrato. Se por outro lado o apicultor decidir arrendar os espaços, terá de necessariamente fazer um projeto de maior envergadura para poder pagar as rendas e aí já não seriam 8 apiários mas mais uns quantos. O pro-rural, onde era suposto ajustar o Proder às especificidades dos Açores nada alterou neste ponto e por isso ficamos em clara desvantagem. Não seria vantajoso que se apostasse em apoiar também os pequenos apicultores que não tem possibilidade de ter mais apiarios mas que poderiam melhorar as suas explorações? Não é este país onde mais de 95% dos apicultores são amadores? Apoie-se (digo eu) também  a estes!
    Prespetiva de Financiamento Pro-rural para apicultura.
  •          Um ponto na portaria que regulamentava a atribuição do apoio Pro-rural, (artigo 6º alínea d) obrigava a que o projeto começasse a ter viabilidade económica para gerar um salário mínimo nacional pelo menos volvidos 3 anos do início da implementação do projeto. Não sei como se processa a implementação dum projeto de pecuária mas um projeto apícola nos Açores dificilmente terá essa viabilidade volvidos apenas 3 anos. Eu diria que uma exploração apícola precisaria para gerar tal lucro no mínimo dos mínimos 4 anos. Se não, façamos a seguinte simulação: no 1º ano imaginemos que um apicultor procura comprar enxames de abelhas no mercado fechado dos Açores (não se pode, e bem, importar enxames). Imaginemos que consegue que lhe vendam 20 enxames (acreditem, conseguir 20 enxames num ano, é obra em S. Miguel, imagine-se nas outras ilhas mais pequenas.) No 1º ano não faz desdobramentos pois comprou enxames em núcleos como é normal por estas paragens. No 2º ano imaginemos que tem sorte com as condições climatéricas e consegue desdobrar esse número inicial por 3 resultando em 60 enxames e adquire mais 30 enxames. Ou seja, passa a ter 90 enxames (isto com uma taxa de sobrevivência de 100% que como sabemos é quase impossível). No 3º ano dizia o Pro-rural que era para apresentar resultados, um salário mínimo nacional no mínimo. Com 90 enxames o apicultor depara-se com um dilema: faz desdobramentos e  não tira mel mas atinge as 200 colmeias exigidas, ou tira mel mas não atinge lucro pretendido para pagar o seu salário. Mesmo se optar por fazer apenas um desdobramento por colónia ele conseguirá obter as quase 200 colmeias mas certamente não conseguirá retirar mel suficiente para já no 3º ano gerar no mínimo o seu salário. A agravar tudo isto ainda existe aquela famosa recomendação (quase obrigação) na apicultura: ‘nunca trabalhar sozinho num apiário’, logo, o projeto deverá prever um empregado pelo menos na fase critica. Mas para pagar mais uma pessoa já não se requer apenas 200 colmeias em 8 apiários. Serão necessários muitos mais apiarios e muitas mais colmeias. Como conseguir tudo isso em apenas 3 anos nos Açores? Estava o pro-rural adaptado realmente às especificidades dos apicultores açorianos? Na parte referente a apicultura, diria que este foi um copy past do PRODER, ou seja, não estava adaptado de forma nenhuma à apicultura regional.

 Com todos esses obstáculos ultrapassados, acreditem, é apenas o começo. A burocracia exigida para apresentar e executar um projeto destes é um verdadeiro desafio. E pensava eu que para se ser apicultor tínhamos de saber trabalhar com abelhas. Burrice a minha...
É verdade que nos Açores não temos varroa na maioria das ilhas e é porventura dos últimos sítios do planeta onde ainda não o há, e temos colmeias em criptoméria fantásticas que duram 3 ou 4 vezes mais que as dos colegas continentais e temos excelentes florações praticamente todo o ano e um mel monoflororal de incenso único no mundo. Num Éden como este, adivinhem quem faz de serpente. E viva o parente pobre da agricultura. 



Saudações Apícolas.